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Shovel Knight
escrita por André Brandi

Ao longo da história da indústria, a figura do cavaleiro tem sido uma das mais escolhidas entre os criadores de videogames na hora de definir quem protagonizará uma nova aventura. Exemplos não faltam. É expressiva a quantidade de jogos em que o personagem principal é um honrado homem de armadura que quase sempre carrega armas letais e intimidadoras como espadas, lanças e machados. Foi apenas em 2014, porém, que um grupo de novos desenvolvedores resolveu dar destaque a uma ferramenta pouco usual e bem menos ortodoxa.

Shovel Knight é exatamente o que o nome dá a entender. O título é a primeira criação do estúdio independente Yacht Club e segue a jornada de um cavaleiro armado com uma humilde pá. A história é simples. Recluso e de luto por ter perdido sua amiga mais próxima, Shield Knight, Shovel se vê obrigado a sair da aposentadoria quando seu reino é ameaçado pela maligna Enchantress e sua Order of No Quarter, composta por oito membros de habilidades distintas. O guerreiro então deve encontrar e derrotar todos para restaurar a paz e quem sabe exorcizar alguns demônios de seu passado.

Assim como muitos jogos indie desse estilo, a campanha é um clássico plataforma 2D com gráficos, sons e música em 8-bits, se inspirando no período do NES e do Super Nintendo. Por causa disso, o visual é bastante carismático e colorido e a trilha sonora carrega uma boa dose de personalidade e nostalgia, com ótimas composições de Jake Kaufman, da série Shantae, e Manami Matsumae, mais conhecido por seu trabalho no primeiro Mega Man.

Na busca para se manter fiel à época homenageada, a obra procurou utilizar controles bem minimalistas e depender apenas de dois botões. Um pula e o outro ataca. Há também a combinação de segurar para cima e apertar o segundo para utilizar os itens, mas o jogador tem liberdade para mapear as teclas do jeito que quiser e movimentar o personagem ou com o analógico ou com o mais tradicional Dpad.

Jogabilidade é um termo chave. Na era de ouro dos videogames, o que tornava um título bom ou ruim era quão bem ele respondia aos comandos dados no controle. Nesse quesito, Shovel Knight dá um show. Com a pá, o cavaleiro é capaz de cavar buracos, apagar fogueiras, quebrar blocos e distribuir pancadas na frente, atrás, no chão e no ar. Ainda existem outros três upgrades que podem ser comprados para o instrumento e todos os tipos de golpes ocorrem de forma natural e fluem bem em qualquer situação. Se algo não funcionar, a culpa geralmente é do jogador e não do jogo.

O que torna a aventura especial, porém, é sua ambição em usar as melhores ideias e conceitos de grandes séries do passado. Quem jogou o original DuckTales ou mesmo sua versão remasterizada, vai se sentir em casa. Segurar para baixo ao executar um salto faz o personagem usar sua ferramenta como um propulsor para quicar e causar dano aos inimigos de maneira muito parecida a como Tio Patinhas fazia no Nintendinho. O jogo incorpora tal mecânica com frequência e a torna necessária para superar boa parte dos obstáculos.

Além da pá, Shovel também pode colecionar objetos chamados de relíquias. Em várias fases, existem baús escondidos que revelam um personagem capaz de vendê-las. Se o jogador conseguir encontrá-los e tiver dinheiro, ele ganhará poderes semelhantes aos obtiveis na série Mega Man. Os itens acompanham vantagens como a de criar plataformas, atirar projéteis, se manter invencível por um curto período de tempo, planar e mais, por um custo cobrado em magia. Possuí-los se mostra extremamente útil diante de determinadas áreas ou adversários específicos que são claramente frágeis contra certos poderes.

O level design lembra também os antigos Castlevania pelo padrão dos inimigos e pela distribuição dos elementos na tela. Shovel Knight, inclusive, usa uma mecânica que se tornou bastante controversa nas histórias de Simon Belmont. Quando algo ou alguém fere o personagem, ele é imediatamente jogado para trás. Tal característica, sozinha, é suficiente para deixar muitos jogadores suando frio diante de qualquer inimigo próximo a um abismo. No entanto, a dificuldade escala de forma bem melhor a como acontecia na franquia da Konami. Espere bastante desafio, mas nada tão injusto.

O mapa bebe de Super Mario Bros 3, com níveis que podem ser alcançados através de rotas alternativas e eventos que ocorrem no caminho entre dois estágios. Há também aspectos de Zelda II, como a presença de vilarejos parecidos com os visitados por Link, onde o protagonista deve conversar com personagens dos mais esquisitos para descobrir segredos, se fortalecer para prosseguir na aventura e ativar sidequests.

As ferramentas de navegação são bastante intuitivas. O menu serve para checar quantos colecionáveis foram obtidos, como o atual equipamento do jogador e todos os seus itens. Salvar seu progresso é um processo automático. Nas faixas de informação em cima da tela, há apenas uma barra de vida, um medidor de magia, um espaço para mostrar qual relíquia está atualmente equipada e um contador de dinheiro. Este último é o mais importante e a parte mais original de Shovel Knight, pois a campanha não utiliza nenhum sistema de "Game Over".

Muito do que acontece dentro do jogo depende de poder monetário. Ele é necessário para abrir passagens, desbloquear acontecimentos, expandir vitalidade e potencial mágico, entre outras coisas. Por causa disso, o time de desenvolvimento recheou todas as áreas com altas quantidades de ouro. É natural encontrar joias e pedras preciosas em qualquer canto e encarar cruéis sequências de plataformas só para encher os bolsos ainda mais. O dificil, porém, é sair das fases com tudo que se obteve. Ao morrer, o jogador perde, no lugar de vidas, dinheiro. É possível recuperá-lo, voltando exatamente na parte em que o acidente aconteceu, mas se outra fatalidade ocorrer nesse processo, o valor será completamente apagado.

Conforme a dificuldade da jornada aumenta, entrar em um lugar novo com a carteira pesada se torna um risco constante, já que existem grandes chances de que o personagem saia de lá mais pobre do que quando ele entrou, mesmo a área contendo adicionais de riqueza. Dependendo do prejuízo, vale a pena, de frente para o chefe final, desistir e refazer tudo desde o ínicio só para não salvar o tremendo déficit que os obstáculos causaram. Ao obrigar as pessoas a tomar decisões como essa, o título constrói uma espécie inédita de "Game Over" que é completamente optativa. Além disso, tal cenário cria situações interessantes em que, ao encontrar um trajeto mais abundante, acaba-se pesando seu custo benefício, já que ele será também, mais perigoso.

O jogo é relativamente curto, sendo possível terminar a experiência com todos os seus colecionáveis em pouco mais de 10 horas. No entanto, ele diverte enquanto dura e deixa uma satisfatória sensação de recompensa quando acaba. O roteiro é sempre leve e divertido e para quem quiser, existe uma seção chamada Feats, que inclui 45 objetivos que podem ser convertidos em medalhas. Completá-los é um desafio a parte visto que alguns beiram o absurdo, como terminar o jogo sem morrer ou sem usar nenhum checkpoint. Há também a função New Game Plus, que torna possível começar uma aventura do zero com saúde, magia e equipamento completos, mas com inimigos que darão mais dano e itens de vida que aparecerão com menos frequência.

Veredito

Shovel Knight é um excelente exemplo da importância da plataforma Kickstarter. Seu desenvolvimento só foi possível porque em menos de um mês, entusiastas do mundo todo doaram dinheiro, pela internet, para uma equipe novata de profissionais que tinham uma ideia, mas não os meios para torná-la realidade. O resultado é um produto satisfatório, acessível e de qualidade que não só rivaliza como supera muitas superproduções de outras empresas que, notavelmente maiores, nem sempre atingem tal nível de inspiração.




8,5


comentários
Pedro Magalhes da S
30/06/2014 s 22:02
Já estou jogando o New Game+ e é muito viciante. Um prato cheio para quem curte esse tipo de jogo!
Fujiro nakombi
27/06/2014 s 16:24
Fiquei interessado pelo jogo! Mas estou com um fila grande de jogos...
Quando aparecer uma promoção pegarei sem medo! :)
Munhoz
27/06/2014 s 14:22
Nossa, de fato o preço é meio salgado.. Acho que vou testar no PC e pegar depois no 3DS.
Felipefm94
27/06/2014 s 14:17
tá custando 15 C$ na e-shop canadense. (tá salgado o preço mas vale a pena).
Munhoz
27/06/2014 s 12:47
Esse é um jogo must buy pra mim! Parabéns pela excelente análise! Só discordei quanto considerar o jogo curto com 10 horas, mas isso vai de gosto!

Estou sem o 3DS, e queria saber o preço desse jogo, não acompanhei o lançamento. Alguém sabe?
WTF Ivysaur
27/06/2014 s 12:32
Só achei decepcionante o jogo vir incompleto com o que foi prometido. Sei que já falaram que vai rolar um update de graça com tudo que falta, mas mesmo assim, foi uma espetada desagradável.

Fora isso, 10/10.

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